sexta-feira, 21 de setembro de 2007

ANTÓNIO EUSTÁQUIO, 80 ANOS, UM EXEMPLO

VELHOS SÃO OS TRAPOS
Liga dos Combatentes e Associação de Dadores
dão força e sentido à "velhice" de António Eustáquio
António Joaquim Eustáquio, nasceu há 77 anos, na Rua da Carreira, em Alpalhão. Desde há muitos anos que reside em Portalegre, cidade onde lhe nasceram os filhos e em que, após a passagem à reforma, se empenhou na criação de uma associação humanitária que é referência a nível nacional: a dos Dadores de Sangue do Distrito de Portalegre.
Esteve em Nisa, numa das suas "peregrinações" na recolha desse líquido precioso e vital. Aproveitámos para pôr a escrita em dia e ouvi-lo falar no seu saboroso sotaque alpalhoeiro que não renega.
"Comecei a trabalhar aos 5 anos, no campo. Aos 7/8 anos fui para os "barros" do Ervedal (Avis) e Cano, onde estive até ir para a tropa. Fazia de tudo no campo, mas a vida militar chamava-me e fui dar o nome (inspecção), tendo seguido para Portalegre, onde assentei praça a 5 de Abril de 1948. Fiz duas comissões em Angola e duas em Moçambique. No continente estive em Évora durante seis meses, mas pertenci sempre à Companhia de Infantaria de Portalegre. Reformei-me em 1987, aos 60 anos, como sargento-ajudante.
Depois de reformado e para não fazer como tantos outros, ou seja, "andar nos copos", entrei para a direcção da Liga dos Combatentes, de que era sócio deste 1983, primeiro como vogal, depois passei a tesoureiro e mais tarde fui eleito presidente, cargo que ainda desempenho.
Como é que acontece a sua ligação à Associação de Dadores?
Eu fui dador durante muito tempo e na altura desconhecia que houvesse associações deste tipo e mais tarde fiquei a saber que não havia nenhuma no nosso distrito. Pensei logo em formar uma associação e após vários contactos e pedidos de informação, acabámos por criar a Associação de Dadores Benévolos de Sangue do Distrito de Portalegre, em 5 de Setembro de 1990, já lá vão 15 anos. A primeira sede foi na própria Liga dos Combatentes, mas eram coisas muito distintas e tanto porfiámos que conseguimos um "cantinho" no Hospital Distrital, junto ao Banco de Sangue, num espaço que, não sendo por aí além nos satisfaz e nos proporciona um contacto regular com os dadores.
E no que se refere a acções práticas, o que fizeram?
O principal objectivo da Associação de dadores era sensibilizar as populações para a necessidade de darem um pouco do seu sangue em favor do seu semelhante, vítima de doença ou acidente.
Em 1992/93 começámos a colheitas móveis por todo o distrito e percorremos todos os concelhos, com excepção de Elvas, onde existe uma associação própria, e o concelho de Gavião, por estar na área de influência do Hospital de Abrantes. O concelho de Ponte de Sor tem, igualmente, uma associação, mas fazemos regularmente (duas vezes por ano) colheitas em Montargil, por nos ter sido pedido e desde a primeira não mais deixámos de fazer.
O que é que representou para a Associação a primeira recolha ou colheita de sangue, fora de Portalegre?
A primeira recolha móvel que fizemos foi no Crato, no Quartel dos Bombeiros. Lembro-me que havia alguma curiosidade, era uma coisa nova, mas fomos muito bem recebidos. Aliás, a partir daí e por todos os concelhos do distrito tem havido uma grande recepção, tanto por parte das autarquias, centros de saúde, bombeiros. Todos compreendem e apoiam a nobreza destas acções humanitárias, bem como, principalmente, parte da população, os dadores, os verdadeiros obreiros das dádivas de sangue.
A popularidade da vossa Associação cresceu ainda mais com o programa de rádio. Como é que apareceu e porquê, esta iniciativa?
O programa surgiu quase de um momento para o outro e na sequência de um encontro de amigos, onde estava o dr. Nuno Oliveira, presidente da direcção da Rádio Portalegre. Disse- lhe, meio a sério, meio a brincar: "Ó doutor, você podia dar-me um tempo de antena para divulgar as nossas acções!". O dr. Nuno Oliveira, respondeu-me: "Se você quiser é já amanhã!"
A partir daí, há 10 anos, temos um programa semanal (às quartas-feiras) na Rádio Portalegre onde falo dos problemas relativos às dádivas de sangue e procuro sensibilizar os dadores e não dadores para a importância desse gesto tão altruísta, que é dar um pouco do sangue, em benefício daqueles que precisam, muitas vezes ajudando a salvar vidas e a minorar o sofrimento.
A actividade da vossa associação contribui para o Hospital de Portalegre seja
autosuficiente em sangue?
As dádivas de sangue têm-se mantido ao mesmo nível ao longo destes anos e até aumentado, o que faz com que o Hospital de Portalegre não tenha qualquer necessidade de recorrer ao exterior, a não ser em casos excepcionais. Todo o sangue que é recolhido é aproveitado, pois o sangue só pode estar armazenado durante 40 dias. Se há excedentes é cedido a outras unidades de saúde mais carenciadas. Em 2004, para além de fornecermos o HDP, ainda demos para outros hospitais 843 unidades de sangue. O Instituto Português do Sangue, através do dr. Almeida Gonçalves, por diversas vezes, agradeceram a nossa colaboração e empenhamento.
O que é que o faz, quase com 80 anos, dedicar a estas actividades, Liga e Associação de Dadores?
O que eu retiro disto é a sensação de ajudar, de resolver problemas a muita gente aflita e necessitada. Enquanto me puder mexer, farei os possíveis para que esta associação não morra e continue com a mesma força, determinação e disponibilidade para manter esta acção humanitária. Eu não esqueço mais o tempo em que as pessoas necessitavam de uma dádiva de sangue e andavam a bater às portas, a pedir a alguém que lhe desse sangue. Deve ser uma situação aflitiva, dramática, termos um ente querido a quem os médicos dizem que precisa de sangue e nós não termos esse remédio à mão. Hoje, felizmente, no nosso distrito, situações dessas já não acontecem, porque o Hospital tem o sangue.
Se bem que nunca é demais continuar a pedir a toda a gente para dar sangue. Eu costumo dizer: "Se todos dermos, todos temos; se só alguns dermos, só alguns temos. E, se ninguém der, ninguém tem".
Esta a filosofia de um sargento humanista, que viveu e sentiu os anos de brasa da guerra colonial, em locais "míticos" como a Pedra Verde ou os Dembos, em Angola.
in "Jornal de Nisa" - nº 188

PARABÉNS ANTÓNIO EUSTÁQUIO!

Hoje, 21 de Setembro, comemora 80 anos
António Joaquim Eustáquio assinala hoje, dia 21, 80 anos de vida. Nascido no seio de uma família pobre e com dez irmãos, este "alpalhoeiro de sangue na guelra", fundou, já após estar reformado, a Associação de Dadores Benévolos de Sangue do Distrito de Portalegre. O que tem sido a acção altamente meritória desta acção, a nível regional, já todos conhecem.
Hoje, aqui e agora, queremos festejar os 80 anos do seu principal obreiro, António Joaquim Eustáquio e enviar-lhe um grande abraço de parabéns. No dia 29, em Alpalhão, lá estaremos para acompanhar mais uma recolha de dádivas de sangue e tributar-lhe num abraço fraterno, o nosso apreço, estima e amizade.
Parabéns, António Eustáquio!